Corpo

Cuidar do corpo sem cair em vaidade

Por Érica Calcagno · 15 de abril de 2026 · 3 min de leitura

Há uma fronteira fina entre cuidar do corpo como mordomia do que Deus me deu e idolatrá-lo como identidade. Passei duas décadas dos dois lados dessa fronteira — primeiro como profissional, depois como ministra — e o que aprendi não cabe num único texto. Mas começa com uma frase simples: o corpo não é o problema. A pressa é.

Quando comecei a atender mulheres no consultório, no começo dos anos 2000, era raro alguém chegar pedindo um procedimento por amor próprio. Quase todas chegavam por comparação — a foto da amiga no Facebook, a influenciadora no Instagram, a colega que tinha rejuvenescido. A pergunta que ouvi mais vezes em vinte anos foi a mesma: “Tem como ficar parecida com ela?”

A resposta tecnicamente é sim — quase sempre tem como aproximar. Mas não era essa a pergunta que elas estavam fazendo. A pergunta era outra, mais funda. Era: “Tem como eu deixar de ser eu?”

Mordomia não é o oposto de cuidado

Cresci ouvindo que cuidar do corpo era vaidade. Aprendi depois, mais devagar, que a Bíblia tem uma palavra mais precisa para o que devemos fazer com o corpo — e essa palavra é mordomia. O corpo é dado, não conquistado. E o que é dado pede cuidado, não desprezo.

“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que está em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?”

— 1 Coríntios 6.19

O corpo como templo desfaz dois extremos ao mesmo tempo. Por um lado, desfaz o ascetismo que diz que cuidar do corpo é mundano — templo se cuida, templo se mantém limpo, templo se honra. Por outro lado, desfaz o culto ao corpo que diz que minha aparência é minha identidade — templo abriga algo maior do que ele mesmo. O templo serve. Não é servido.

Três perguntas que aprendi a fazer antes de cuidar

Com o tempo, comecei a ensinar minhas alunas e pacientes a fazer essas três perguntas antes de qualquer procedimento ou rotina. Continuam servindo hoje:

  1. Estou cuidando ou estou fugindo? Cuidar olha pro corpo com gratidão pelo que ele faz; fugir olha pro corpo com desespero pelo que ele revela.
  2. Estou cuidando do corpo, ou tentando comprar aprovação? Mordomia não tem pressa, não tem urgência, não tem dependência do que os outros acharão.
  3. O que mudaria se eu morasse sozinha numa ilha deserta? O que sobreviver desse filtro é o cuidado autêntico. O que sumir era performance.

Porque a beleza que dura é a beleza que veio de dentro pra fora. Tudo que se faz de fora pra dentro é necessário, sim. Mas é o segundo passo. Nunca o primeiro.

Com carinho,
Érica

Cartas para mulheres cristãs

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