Há uma fronteira fina entre cuidar do corpo como mordomia do que Deus me deu e idolatrá-lo como identidade. Passei duas décadas dos dois lados dessa fronteira — primeiro como profissional, depois como ministra — e o que aprendi não cabe num único texto. Mas começa com uma frase simples: o corpo não é o problema. A pressa é.
Quando comecei a atender mulheres no consultório, no começo dos anos 2000, era raro alguém chegar pedindo um procedimento por amor próprio. Quase todas chegavam por comparação — a foto da amiga no Facebook, a influenciadora no Instagram, a colega que tinha rejuvenescido. A pergunta que ouvi mais vezes em vinte anos foi a mesma: “Tem como ficar parecida com ela?”
A resposta tecnicamente é sim — quase sempre tem como aproximar. Mas não era essa a pergunta que elas estavam fazendo. A pergunta era outra, mais funda. Era: “Tem como eu deixar de ser eu?”
Mordomia não é o oposto de cuidado
Cresci ouvindo que cuidar do corpo era vaidade. Aprendi depois, mais devagar, que a Bíblia tem uma palavra mais precisa para o que devemos fazer com o corpo — e essa palavra é mordomia. O corpo é dado, não conquistado. E o que é dado pede cuidado, não desprezo.
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que está em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?”
— 1 Coríntios 6.19
O corpo como templo desfaz dois extremos ao mesmo tempo. Por um lado, desfaz o ascetismo que diz que cuidar do corpo é mundano — templo se cuida, templo se mantém limpo, templo se honra. Por outro lado, desfaz o culto ao corpo que diz que minha aparência é minha identidade — templo abriga algo maior do que ele mesmo. O templo serve. Não é servido.
Três perguntas que aprendi a fazer antes de cuidar
Com o tempo, comecei a ensinar minhas alunas e pacientes a fazer essas três perguntas antes de qualquer procedimento ou rotina. Continuam servindo hoje:
- Estou cuidando ou estou fugindo? Cuidar olha pro corpo com gratidão pelo que ele faz; fugir olha pro corpo com desespero pelo que ele revela.
- Estou cuidando do corpo, ou tentando comprar aprovação? Mordomia não tem pressa, não tem urgência, não tem dependência do que os outros acharão.
- O que mudaria se eu morasse sozinha numa ilha deserta? O que sobreviver desse filtro é o cuidado autêntico. O que sumir era performance.
Porque a beleza que dura é a beleza que veio de dentro pra fora. Tudo que se faz de fora pra dentro é necessário, sim. Mas é o segundo passo. Nunca o primeiro.